Espantado, José Luís não consegue dizer nada. Apenas a observa, distante, sem perceber muito bem o que se acaba de passar. A sua mente parece ter sofrido uma forte pancada e o seu coração acelerado aparenta ter subido trezentos degraus de seguida. Como será possível? A rapariga dos seus sonhos. Literalmente a rapariga dos seus sonhos é aquela que está umas filas à sua frente naquele início de tarde de Outono na Faculdade de Letras.
Debate com colegas questões históricas, mas os seus movimentos relembram-lhe aqueles de uma corça no meio da floresta. Simples. Ágil. Bela. Ali está, uma vez mais, a mulher dos seus sonhos. Literalmente a mulher dos seus sonhos...
A sua mente vagueia e recua até à noite anterior. A noite em que, num sonho, José Luís teve uma aventura romântica com Claúdia. No seu sonho, sentiu o corpo da rapariga mas não foi capaz de ver qualquer rosto. Apenas o corpo e conceito: Cláudia. Acorda confuso, com a deaumbulação nocturna do cérebro bem presente na memória e, racionalista como é, chega facilmente à conclusão que o seu subconsciente foi buscar imagens e a ideia da sua grande amiga Cláudia para com eles realizar uma pequena peça de teatro nocturno onde ele tinha sido o protagonista.
Mas o seu sonho não o larga toda a manhã. José Luís sabe perfeitamente que os sonhos são construídos pelo subconsciente. Contudo, também sabe que há uns sonhos que mexem mais connosco do que outros. Sonhos que são capazes de nos tirar do sério. Sonhos que nos fazem acordar sobressaltados. Este talvez não fosse um desses em que uma pessoa acorda a suar e a gritar mas, certamente, não o deixou indiferente.
E é então que ela aparece na sua vida. Subtil mas errante, entra na sala para se aliviar da carga que carregava nos braços e rapidamente sai para ir buscar qualquer coisa, aproveitando o facto da professora ainda não ter chegado. José Luís nem repara nela, tão absorto está nos seus pensamentos. Os espaços entre aulas, aqueles quinze ou vinte minutos em que toda a gente troca de sala cruzando-se nos corredores, são os seus momentos preferidos de reflexão. José Luís prefere não perder tempo e chegar mais cedo à sala. Entra, senta-se, coloca a pasta em cima da mesa e espera pelos docentes. Enquanto espera, perde-se no infinito cognitivo do seu ser. Reflecte sobre as mais diversas coisas e, naquele dia, o tema de reflexão era o sonho da noite anterior. Assim se explica que não a tenha visto quando os seus delicados pés cruzaram a linha entre o corredor e a sala trezentos e seis. Assim se explica que apenas tenha olhado para ela momentos antes da professora cruzar a mesma linha.
O que não se explica é o que José Luís sentiu a seguir: Claúdia. Só e apenas Cláudia. O tempo abrandou, tudo parecia passar em câmara lenta. O segundo do tempo real parecia ser uma hora para José Luís. E, com ele, apenas um pensamento: Cláudia.
Os seus olhos tinham repousado sobre o conceito do sonho da noite anterior. Ele apenas sabia que aquela era a Claúdia do seu sonho.
O segundo transformado em hora teve de ser retansformado em segundo porque a professora tinha acabado de entrar na sala. Contudo, José Luís estava espantado. Não se tinha ainda refeito do choque de ter reconhecido alguém que ele nunca tinha conhecido. Como, porventura, se pode reconhecer alguém que não conhecemos? O seu racionalismo não o conseguia explicar.
"Boa tarde, meus senhores" diz a professora acabada de entrar. Algazarra. Toda a gente se senta e abre os cadernos. As canetas são retiradas das pastas e o ranger das cadeiras pelo chão indica que todos se colocam no seu lugar. De seguida, o silêncio que acompanha o solene momento do início de uma aula. Também a professora abre a sua pasta e retira dela os apontamentos para aquele dia. Colocando os óculos e lendo algumas linhas em silêncio, a professora profere a primeira sentença. "Ora então hoje é dia de apresentação de alguns trabalhos" começa por afirmar. "Vamos lá a isso, meus senhores. Quem é o primeiro?".
Espaço. Espaço então para José Luís tentar ordenar os seus pensamentos. Enquanto dois colegas fazem as respectivas apresentações, ele luta para perceber o que tinha acabado de acontecer. Acaba por desistir ainda a tempo de ouvir as conclusões e a subsequente discussão do trabalho do segundo colega. Não sabe que o murro fatal, o murro de Knock-Out está ainda por vir.
"Ok, meus senhores, quem é o próximo? Cláudia, é você?" pergunta a professora. Choque! O cérebro de José Luís parece andar para a frente e para trás, agitado pela onda de choque do soco que acaba de receber. O conceito do sonho, a rapariga que tinha atravessado a porta momentos antes da professora, a sua Cláudia, tinha acabado de se levantar para fazer a sua apresentação. José Luís nem podia acreditar. Ouviu a apresentação sem absorver uma palavra sequer, apenas observando os movimentos dela em silêncio. Perdeu por completo qualquer que fosse a mensagem que aquele ser angelical estava a transmitir naquele momento, simplesmente porque estava espantado com a sua beleza.
E, de repente, já tudo tinha terminado. Nos momentos de confusão comuns ao final de qualquer aula, José Luís está parado. Apenas a observa, distante, sem perceber muito bem o que se acaba de passar. A sua mente parece ter sofrido uma forte pancada e o seu coração acelerado aparenta ter subido trezentos degraus de seguida. Como será possível? A rapariga dos seus sonhos. Literalmente a rapariga dos seus sonhos é aquela que está umas filas à sua frente naquele início de tarde de Outono na Faculdade de Letras.
Aquilo que ele não sabe é o que ainda está por vir. E assim, também nós esperamos pelo amanhã.
2 comentários:
Uma história muito bem escrita e que na minha opinião merece ser apenas um pequeno início de algo que seria deveras interessante de ser lido.
Espero sinceramente que haja continuação ainda que porventura não tenha sido essa a intenção.
Abraço
"(...)perde-se no infinito cognitivo do seu ser"
Muito bem Sr. João, não sabia que tinha uma veia voltada para a escrita!
=)
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