sexta-feira, janeiro 08, 2010

Momento


Os sombrios ramos da árvore constrastam com o ceú limpo de Inverno. A imagem é singela mas das mais bonitas que alguma vez contemplou. Do outro lado dos ramos despidos o Sol ainda brilha. Os seus raios de luz ondulam pelo espaço, atravessam os ramos e tocam o seu rosto. Parecem lamber-lhe lentamente as gotas que escorrem pela sua face. Transmitem-lhe o consolo que necessita. Doces carícias tépidas que o acompanham na sua solidão.

Sentado numa pedra, encontra-se o rapaz. Iluminado pelo Sol de Inverno mas escondido no meio dos pensamentos que assolam a sua mente. O olhar vagueia pelo horizonte sem focar nada em particular. Perdido no mar de dor, afogado no oceano da angústia.

O ar frio passa pelas suas mãos e provoca um arrepio. Os seus olhos vermelhos dão-lhe um ar pesado, incaracterístico de si mesmo. Sozinho está o rapaz. Fechado no seu casaco, procurando calor no meio do mundo gelado que o rodeia. Procurando ruídos num mundo de silêncio.

Assim está o rapaz nesta tarde de Inverno.

-Quem és tu? - pergunta a árvore.
-Eu sou um simples rapaz - responde ele
-Porque choras, simples rapaz?
-Poderia isso interessar a uma árvore tão imponente como tu? Que já viveu tanto como tu?
-Sabes, se há coisa que aprendi ao longo destes anos é que são as coisas mais simples que mais importam.
-Queres mesmo saber?
-Sim, claro! Senão, porque te tinha perguntado?
-Choro porque hoje estou sem ela...
Um longo silêncio abate-se, acompanhado pelas lágrimas do rapaz
-Sem o teu amor? - questiona a árvore.
-Não! Sem a minha criadora, sem a minha inventora. Todos os anos encontramo-nos neste sítio para ela me arranjar. Para ela corrigir os meus defeitos.
-Mas um rapaz como tu tem defeitos?
-Sabes, eu não sou um rapaz qualquer...
-Ai não? Então?
-Eu sou um rapaz de ferro. Um computador em vez de um cérebro, fios eléctricos em vez de veias e sistemas hidráulicos em vez de músculos e articulações.
-Ah, estou a compreender...
-E hoje eu necessitava mesmo muito dela! Acho que tenho um defeito muito grave. Precisava que ela me visse. Mas estou aqui desde manhã e ela ainda não apareceu...
-Não há problema, eu faço-te companhia.
-Fazes, árvore?
-Sim, não te preocupes.

O típico barulho de passos no meio do cascalho faz-se ouvir. Pedidos de desculpa por estar tão atrasada são apresentados. O choro cessa. O rapaz sente-se feliz por ver a sua criadora. Despede-se da árvore e segue a sua inventora, rumo ao poente. O Sol pôe-se e a Terra mergulha lentamente na escuridão. O rapaz está feliz.

Para a minha mãe, minha criadora e inventora