17 de Outubro de 2004. Quem se lembra desta data? Alguns estudiosos do futebol rapidamente se lembrarão do Benfica-Porto célebre pelo golo-fantasma que Petit marcou a Vitor Baía. Eu relembro-me porque nessa data perdi um amigo de quem nunca me pude despedir. Alguém a quem nunca pude pedir desculpa. Alguém que se foi embora rapidamente.
Três anos, um mês e um dia depois, posso relembrar com exactidão o dia da sua última despedida. Os passos que dei nesse dia estão-me gravados na memória. Chuvia a potes e eu, no cemitério, debaixo de um grande guarda-chuva, com as capas do coro debaixo do braço, chorava amargamente. Posso lembrar-me com exactidão das palavras que proferi à família durante a cerimónia.
O porquê de me ter causado tanta impressão a morte de um senhor de avançada idade nunca percebi. O que eu sei é que eu e os meus amigos fazíamos troça do pobre homem, que, talvez pela idade, não acertava nas notas que era suposto cantar. O que eu nunca soube foram os sacrifícios que ele fazia para estar presente nesses mesmos ensaios. O que eu nunca soube foram as incontáveis vezes que o senhor não falava com a filha, que lhe telefonava da Alemanha, para apanhar os transportes necessários para estar no ensaio a horas.
Talvez por nunca ter tido uma oportunidade de lhe pedir desculpa me marcou tanto a sua morte. Nesse dia 19 de Outubro de 2004, tomei a decisão sobre o que queria fazer na minha vida. Nesse dia soube aquilo que queria ser. A minha decisão foi influenciada pela sua morte? Talvez sim, talvez não... Quem poderá saber?
Infelizmente, o tempo não pára e já passaram três anos desde esse longínquo dia chuvoso de Outono. Encontro-me um homem diferente. Encontro-me em nada semelhante àquele rapaz de 18 anos que chorou debaixo daquele guarda-chuva, aparado por uma amiga de infância. Os meus interesses são outros, a vida foi-me ensinando que até os amigos de infância desaparecem da nossa vida. E, não sei porquê, a lição que aprendi nesse dia foi-se esbatendo. Hoje pergunto-me: a quantas pessoas devo eu um pedido de desculpa? A quantas pessoas devo eu uma reconciliação? Quantas pessoas me fariam sentir culpado se desaparecessem deste mundo? Quantas vezes choraria eu amargamente por nunca poder voltar atrás?
Sinceramente, não sei quantas, mas posso-vos garantir que nenhum homem é uma ilha, e, por isso, não nos podemos isolar simplesmente para não sofrermos. Este é o dia para voltar atrás, antes que o tempo não nos permita mais.
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