Para o Meneses. Neste momento, o que te posso dar é esperança, a certeza que as coisas vão melhorar e a amizade que tu também me deste quando passei por experiência semelhante (embora muito diferente) em 2004. O tempo passa, as amizades esbatem-se, mas há coisas que nunca saem da nossa memória, e o apoio de todos vocês naquele ano é algo que ficará para sempre guardado no meu coração. Este é um humilde obrigado para ti.
"Queridos leitores do 'Canto do Joca',
Sei pelo meu grande amigo João Filipe que a minha história tem agradado às pessoas que a ouviram da boca deste arauto, quer aqui no blog, quer nos textos que ele tem distribuído aos seus amigos. Há quase um ano que lhe contei a história que vocês agora conhecem, embora a tenha contado ligeiramente diferente, e sei o grande impacto que este pequeno episódio teve nele. Talvez por isso ele tenha querido tanto transmitir ao mundo este pequeno conto.
Escrevo-vos para dar continuidade à minha (e que agora é vossa) história, para vos desvendar o que aconteceu desde a altura em que vi a Claúdia a entrar na minha vida de rompante e a alterá-la para sempre. Escrevo-vos porque me foi pedido. Escrevo-vos porque acho necessário não vos deixar na ignorância acerca do que aconteceu posteriormente.
O momento em que a conheci está tão bem relatado que não acho necessário acrescentar nada de novo ao que já foi escrito. Mas o que importa agora saber é o que aconteceu posteriormente. A maneira como o 'Amor de Outono' termina é bastante fiel àquilo que eu sentia no final daquela aula. Eu estava completamente em choque. Estava simplesmente deslumbrado com o que se tinha acabado de passar. Não sabia o que havia de fazer. Lembro-me que saí da sala. E calculo que devo ter descido as escadas, passado pela porta lateral da Faculdade, subido o caminho que conduz ao portão de entrada e caminhado em direcção ao parque de estacionamento onde tinha o meu carro, mas a verdade é que disso já não me lembro. Estava completamente nas nuvens. Desligado do mundo que me rodeava.
Lembro-me de chegar a casa nessa tarde e continuar nesse meu mundo à parte, nessa fantasia que me envolvia. Lembro-me da minha mãe me perguntar: 'Está tudo bem? Estás muito distraído, Zézito'. Lembro-me também de não me conseguir concentrar no estudo. Acho que me sentia como nunca me tinha sentido em toda a minha vida. Só conseguia pensar nela. Só conseguia vê-la vez após vez na minha mente, a apresentar aquele trabalho. Acho que, pela primeira vez em muito tempo, estava apaixonado.
Sabem tão bem como eu que a vida nos vai pregando partidas. E eu naquela altura já tinha passado por algumas. Especialmente no campo amoroso. Eu, que sempre fui um romântico declarado, nunca me dei muito bem nesse campo. A última desilusão tinha-me deixado de rastos. Completamente arrumado para um canto. Sentía-me traído, decepcionado com as pessoas, incapaz de voltar a confiar em alguém. No ano que se seguiu ao romper dessa relação, procurei a felicidade perdida através de várias relações. Nunca cheguei a gostar realmente de qualquer dessas mulheres. Nunca cheguei a reencontrar a minha felicidade. Nunca cheguei a apaixonar-me de novo. Nunca senti as palavras que proferi a essas raparigas e, se alguma chegar a ler este texto, aproveito para pedir desculpa. Eu era um caco. Se lhes trouxe sofrimento, só posso pedir perdão.
Mas naquele dia senti algo que já não sentia há muito tempo. Parecia que tinha reencontrado a minha felicidade. Contudo, esta vinha acompanhada de perplexidade. Uma fonte inesgotável de perguntas inundava a minha mente. 'Quem é esta rapariga? Porque que é que eu sonhei com ela? Porque é que eu sabia que ela se chamava Cláudia ainda antes da professora a chamar? O que fazer agora?'
A última pergunta parecia ter uma resposta fácil, mas na realidade era uma questão bastante complexa. O que eu tinha de fazer era aproximar-me dela. Nunca tínhamos sido apresentados, eu não a conhecia de lado nenhum. Então, era necessário que ela ficasse a saber que eu existia. O problema que se punha era: como é que ia fazer isso? Ia simplesmente dizer um 'olá'? Ia apresentar-me? Ia esperar que chocássemos acidentalmente e que a nossa relação começasse daí? O que é que eu ia fazer?
Decidi então que ia dizer um 'olá' no dia seguinte. Esperei que a noite chegasse, sempre naquele estado de semi-consciência, e fui-me deitar cedo, para estar logo de manhã naquela primeira aula que tinha com ela. A aula desse dia foi a continuação da aula do dia anterior. Espaço sobretudo reservado para a apresentação de trabalhos por vários colegas. As duas horas passaram devagarinho. Ela estava lá e eu ansiava pelo final para lhe dar aquele 'olá'. E foi aí que tudo se tornou mágico.
Enquanto eu estava a arrumar as minhas coisas, tinha a atenção repartida entre a minha pasta e a Cláudia, que estava duas filas à minha frente. Quando reparei que ela se estava a despachar muito mais rápido do que eu, comecei a ficar apreensivo e comecei a arrumar as minhas coisas ainda mais rápido. Não fui capaz de a acompanhar, ela já se estava a levantar. Curiosamente, não tomou o caminho da porta; vinha, isso sim, na minha direcção. A aula dessa manhã foi na sala 106, que tinha duas portas e eu, por momentos, pensei que ela ia sair pela porta de trás. No exacto momento em que terminei de 'empacotar' os livros, o caderno e a caneta, a Cláudia parou à minha beira.
'Tu és o Zé Luís, amigo do Jorge, não és?', perguntou ela. O meu coração saltava a uma velocidade impressionante, pensei que ia ter um ataque cardíaco naquele momento. Tentei disfarçar a minha ansiedade e levantei-me, pegando na pasta. Calmamente respondi que sim e ela explicou-me ao que vinha. Tínhamos uma outra disciplina em comum, para a qual ela estava a fazer um trabalho e o Jorge tinha-lhe dito que eu estava a tratar o mesmo tema. Ela perguntou-me se eu não me importava que uníssemos esforços e trabalhássemos em conjunto. Eu nem queria acreditar. As portas para a Cláudia tinham-se escancarado. E tinha sido ela a fazê-lo. Como é lógico, disse que sim.
Nas semanas seguintes, encontramo-nos várias vezes para trabalharmos juntos. À medida que os dias iam passando, a nossa amizade crescia e sentiamo-nos cada vez mais perto um do outro. Fui aprendendo a descobrir a Cláudia, a desvendar os seus segredos, a perceber a sua história. E da mesma maneira, ela foi aprendendo a lidar comigo, a descodificar-me, a desenterrar-me do meu passado. Lembro-me perfeitamente daquela quinta-feira de finais de Novembro. Ela vestia umas calças de ganga e uma camisola de malha branca. Os seus cabelos soltos pareciam o mar bravo, de tão ondulados que eram. Os seus olhos brilhavam e pareciam sorrir-me enquanto procurávamos mais um livro no meio do labirinto de estantes daquela biblioteca. E eu aproximei-me dela, lentamente. Estávamos no canto mais escuro da biblioteca e ela parecia uma pequena presa encurralada pelo seu predador. Aproximei-me ainda mais. Pus as minhas mãos na sua cintura. Ela colocou as suas mãos no meu pescoço e beijámo-nos pela primeira vez. Um beijo suave. Pura poesia.
Lembro-me também daquele primeiro dia de Dezembro. Era feriado e tínhamos combinado passá-lo em conjunto. Nem o facto de calhar numa segunda-feira nos demoveu, embora deva confessar que ambos experimentamos problemas quando dissemos às nossas famílias o qeu tínhamos combinado. Almoçamos juntos e partimos na nossa aventura por alguns sítios de interesse no Porto. Foi uma tarde muito bem passada. Lembro-me perfeitamente da felicidade que percorria o meu ser. Também recordo o brilho que a Cláudia parecia possuir nesse dia. As tristonhas condições meteorológicas que se abatiam sobre a cidade pareciam derrotadas pelo sol que ela era. Lembro-me perfeitamente de a pedir em namoro em frente da Sé, com o rio como pano de fundo.
Enfim, os meses que se seguiram foram os mais belos que já vivi. O nosso amor um pelo outro crescia exponencialmente dia após dia. E quanto mais descobríamos acerca do outro, mais queríamos descobrir. Nunca antes tinha sentido nada assim por alguém.
E assim chegamos a Fevereiro. Tenho bem presente na memória as lágrimas derramadas naquela tarde do dia 13. Tínhamos combinado almoçar os dois no Cais de Gaia, para celebrar o aniversário dela. Estavamos no final da segunda fase de exames. Ela tinha o último exame nessa manhã e ia da faculdade para lá. Cheguei cedo, comprei um ramo de flores numa florista ali perto e esperei por ela. Tínhamos combinado almoçar ao meio-dia e meia, mas eu esperei até às três da tarde por ela. Nada. O telefone dela estava desligado. As sucessivas mensagens que lhe deixei no voice-mail foram inconsequentes, assim como as mensagens de texto que lhe enviei. Fui para casa, e foi lá que recebi a terrível notícia. A Cláudia tinha sofrido um acidente de carro quando estava a caminho do nosso almoço.
Sem saber bem o que esperar, disparei em direcção ao Hospital de Santo António. Encontrei os pais dela na sala de espera do piso cirúrgico. O abraço longo que nos envolveu e as lágrimas derramadas serviram para nos consolar minimamente. Foram um 'estamos aqui uns para os outros, independentemente do que venha a acontecer'. A Claúdia saiu do bloco pelas nove da noite e o Dr. Ferreira apresentou-nos o primeiro diagnóstico. Ela encontrava-se estável, mas em estado muito grave, razão pela qual tinha sido transferida para a unidade de cuidados intensivos. Deviamos 'estar preparados para tudo'.
Não sei quantos de vocês já ouviram estas palavras, mas aqueles que por aí já passaram, sabem o terrível desespero que nos toma. No meu caso, esse desespero foi acompanhado por um angustiante sentimento de culpa. Se não fosse eu, a Cláudia não tinha tido o acidente. Se não fosse eu, a Cláudia tinha saído da faculdade e seguido em direcção à sua casa, na Boavista. Se não fosse eu, a Cláudia não tinha estado àquela hora naquela entrada de túnel na Arrábida. Se não fosse eu, a vida dela não corria perigo...
Não sei quanto tempo permaneci sentado naquela fria sala de espera no piso da unidade de cuidados intensivos. Não sei quanto tempo permaneci ali, com os olhos vermelhos, com o mundo exterior turvo pelas lágrimas, acompanhado dos meus pais e da família dela, mas sei que nenhum de nós sequer colocou a hipótese de ir embora. Confortávamo-nos uns aos outros. Abraçávamo-nos e dizíamos que tudo ia ficar bem, mesmo que não acreditássemos nisso.
Depois de uma noite muito mal dormida nos bancos daquele hospital, o Dr. Ferreira voltou com as primeiras boas noticias. A Cláudia estava a recuperar. Ainda em estado grave, mas a recuperar. A noite tinha sido tranquila para ela e os sinais vitais estavam estáveis. Ainda não tinha recuperado a consciência, mas aparentemente isso era algo bastante comum nestes casos. As horas que se iam seguir seriam determinantes no resultado final.
Hoje posso contar-vos que a Cláudia passou muito bem essas horas. E as horas que se seguiram a essas. E as que se seguiram a essas outras. E, lentamente, muito lentamente, a Cláudia foi recuperando. Na tarde em que recuperou a consciência, eu estava ao seu lado. Dois dias depois, tivemos uma das conversas mais profundas que já tinhamos tido. Não vos conto todos os pormenores por os pretender conservar na minha privacidade mas posso dizer-vos que ela fez desaparecer o meu sentimento de culpa. Bem, quer dizer, não o fez desaparecer por completo, mas pelo menos atenuou-o imenso. O que restou dele continuará comigo até à sepultura. Acho que simplesmente não é removível. Mas o que importa é que essa conversa foi o que permitiu que a nossa relação continuasse.
Nas semanas seguintes, estive sempre ao lado da Cláudia. As primeiras três semanas foram exclusivamente passadas no quarto do hospital, a recuperar de todo o choque físico sofrido no acidente. O Dr. Ferreira foi-nos acompanhando com grande dedicação ao longo de todo o processo, mesmo quando a Cláudia deixou de estar sob a sua supervisão directa. Foi também ele que nos foi preparando mentalmente para os possíveis longos meses de fisioterapia que se seguiriam. Confesso que era algo que todos esperávamos com alguma ansiedade, num misto de espectativa e dúvida.
O tão antecipado dia da primeira sessão de fisioterapia chegou mais rápido do que esperávamos. Devo aqui salientar a paciência com que as fisioterapeutas trataram a Cláudia. Sem dúvida que, sem o seu cuidado, ela não estaria tão bem como está actualmente. O primeiro passo que deu foi acompanhado por uma célebre citação. Nunca mais esqueço o ar alegre com que ela disse: 'um pequeno passo para o Homem, um grande passo para a Humanidade'. Duas lágrimas de alegria escorreram-lhe de seguida pelo rosto. Também eu chorava de alegria. Um mês e uma semana depois do acidente, a Cláudia tinha voltado a andar.
No exacto dia em que se completaram três meses daquela fatídica Sexta-feira, eu tinha um molhe de balões a pairar por cima da minha cabeça (em resposta a uma private joke que desenvolvemos durante aquele tempo) enquanto esperava por ela à porta do hospital. Tinha preferido ficar por ali. Quando as portas se abriram, a Cláudia tinha o mais belo sorriso estampado no rosto. Estava acompanhada dos pais e duma enfermeira, mas eu nem reparava neles. Ela parecia um anjo. A Enf. Joana ajudou-a a levantar-se da cadeira de rodas e a Cláudia aproveitou para a abraçar, agradecendo-lhe o carinho com que esta a tinha tratado naqueles meses. Depois disso, olhou para mim e parecia que o mundo à nossa volta tinha desaparecido numa nuvem. Caminhei na direcção dela e ouvi um 'és mesmo tolo' em resposta à minha piada dos balões. Eu ri-me, abraçamo-nos longamente e beijámo-nos. O tempo de hospital tinha finalmente terminado.
Nesta manhã em que vos escrevo, tenho a Cláudia deitada a meu lado. Aproveitamos o facto do nosso primeiro aniversário de namoro ser um fim-de-semana prolongado de quatro dias (com uma 'ponte' pelo meio) para casarmos numa festa de grande estilo, e gozamos agora o final da nossa primeira semana de lua-de-mel. Quando olho em retroespectiva para este ano, ainda fico deslumbrado com alguns episódios. A começar por aquela tarde de Outubro em que vi a Cláudia pela primeira vez.
Não vos quero, contudo, transmitir a ideia de que tudo foram rosas na nossa relação. Houve também momentos baixos. No entanto, cedo aprendemos a amarmo-nos apesar das dificuldades e a superar os problemas que íamos tendo. Por isso posso afirmar que somos genuinamente felizes. E também por isso, preferi contar-vos apenas os pontos mais 'bonitos' deste amor...
Hoje a Cláudia ainda sofre com algumas consequências do acidente. Em todo o seu corpo vejo as cicatrizes desse terrível momento. Mas são, sobretudo, as cicatrizes psicológicas que nos vão preocupando mais. Umas vão conseguindo ser superadas, outras não. Em Setembro fomos, com algum custo, jantar ao Cais de Gaia. Desde Fevereiro que, tanto eu como ela, associamos aquele espaço àquela Sexta-feira 13. Eu, pelo sentimento de culpa que ainda me persegue um pouco. Ela, por razões mais óbvias. A Cláudia anda vai lutando com o pavor de viajar de automóvel, mas estou confiante que, dia a dia, vamos fazendo progressos. Apesar disso, ainda não foi capaz de voltar a conduzir. No meio de tudo, ambos temos confiança no futuro e na recuperação progressiva. Por isso vamos lutando.
Gostava de terminar o meu relato com um episódio que se passou há duas semanas atrás. Estava em conversa com o João Filipe num jantar de amigos quando ele falou do sucesso que a história tinha tido desde que ele a publicara no blog. Falou-me dos inúmeros elogios que recebeu e das vezes em que ouviu a pergunta 'há por aí uma Cláudia, pá?'. Rimo-nos um bocado, mas quando olhei para a Cláudia notei aquele ar típico de 'não estou a perceber'. Foi então que me apercebi que nunca lhe tinha contado a história do sonho. Penso que, naqueles meses de início de namoro, nunca tive a coragem necessária para o fazer, não fosse ela pensar que eu era um maluco qualquer. E, com o acidente de Fevereiro, essa história passou para segundo plano. Assim, nunca lhe contei o fantasioso conto de como a tinha conhecido.
Chegados a casa, levei-a de imediato ao computador e deixei que a versão literária do nosso amigo a guiasse. Quando terminou de ler, tinha um sorriso de orelha a orelha. E foi então que ela começou o seu relato: 'sabes, naquele dia, no momento em que tu não reparaste em mim quando eu entrei pela primeira vez na sala, eu reparei em ti. Saí de imediato porque não podia acreditar no que me tinha acontecido. Tinha-te reconhecido do meu sonho dessa noite. Também eu sabia que tu te chamavas José Luís, apesar de não te conhecer de lado nenhum. E mais espantada fiquei quando perguntei ao Jorge, como quem não quer a coisa, quem era aquele rapaz e ele me confirmou o teu nome. Nunca te contei para não pensares que eu era maluquinha'.
Amigos, o Amor anda por aí. Talvez apareça num milagre de Outono, talvez apareça de outra maneira qualquer. Mas, quando ele aparecer, agarrem-se com todas as forças, porque irão ser conduzidos ao topo do mundo.
Um grande abraço,
José Luís"
1 comentário:
Bem...
Nada como uma história destas para nos por a pensar nas coicidências da vida e no que elas no reserva....
Acreditemos que existe uma Cláudia para todos nós.
Enquanto não encontrarmos a nossa Cláudia, sabemos que pelo menos podemos contar com amigos como tu. Que estão ao nosso lado nos momentos mais... "desafiantes" da nossa vida.
A vida equilibra as coisas de uma maneira ou de outra. A felicidade plena não existe. Sempre há cicatrizes e mazelas que nos perseguirão para sempre. Mas são essas cicatrizes que nos vão fazer dar ainda mais valor aos momentos bons.
Um grande abraço e um grande obrigado!
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