sexta-feira, dezembro 11, 2009

Do outro lado do vidro...

Outro dia parei em frente de uma grande janela de vidro. Do outro lado, vi uma rua iluminada pelos enfeites de Natal e um homem parado, exactamente à minha frente. Olhei para a sua cara e não a reconheci, era um completo desconhecido. Tez escura, face envelhecida, olhar cansado. Também ele me olhava e, em breves momentos, observamo-nos mutuamente.

Pensei no que ele estaria a pensar, no que ele estaria a observar, e confesso que me senti um pouco desconfortável. Mas rapidamente cheguei a conclusões que me deixaram mais descansado. Ele estava a olhar para um jovem! Certamente se lembraria do tempo em que tinha tido um fulgor físico semelhante ao meu. Lembrar-se-ia porventura da altura em que o seu olhar não parecia tão desgastado pela vida, em que a sua face transmitia aquele brilho especial da juventude. Percebi então que ele apenas deveria estar numa onda de saudosismo em relação a tempos passados.

Foi então que o observei com mais atenção. Tinha à minha frente um homem de aspecto cuidado, mas sem brilho. A chama dos seus olhos tinha-se apagado. Parecia possuir uma certa indiferença pela vida. Não um desespero, mas antes um certo cansaço. As suas faces estavam descaídas, os seus olhos semi-cerrados e os cantos da boca apontavam para o chão em vez de se abrirem num sorriso.

Contudo, o seu olhar era penetrante. Perscrutava-me a alma em busca de respostas. Talvez a perguntar-se a si mesmo onde é que tinha perdido a sua juventude. Tive pena daquele homem e decidi sair dali. Dei um passo atrás e vi-o a fazer o mesmo. Dei dois passos à minha direita e vi-o a seguir a mesma direcção que eu. Parei e vi-o a parar também. Foi então que me senti realmente desconfortável. Voltei atrás, na outra direcção, mas o homem seguiu-me. Preocupado, gritei com ele e vi-o a fazer o mesmo, exactamente com as mesmas palavras. E então percebi.

Uma onda de choque percorreu-me o corpo. Aquele vidro era um espelho. Do outro lado da janela, estava apenas eu. Velho, cansado, desfigurado...

1 comentário:

Daniela Martins disse...

Mas que bem!

:)